Internet, McLuhan e Monteiro Lobato

Um velho provérbio de origem russa diz que o melhor do novo é muitas vezes o passado imemorável. Muitos dos inventos que conhecemos na trajetória humana foram frutos de outras invenções básicas, em lugares e épocas diferentes e com criadores desconhecidos. Antes de Henry Ford iniciar a fabricação padronizada do seu Ford Bigode, em 1890, o automóvel já havia sido construído para clientes individuais de forma quase artesanal por anônimos mecânicos. E, se voltarmos mais no tempo, há de se perguntar: quem inventou a primeira roda?
Herbert Marshal McLuhan (1911-1980) foi um dos mais importantes e polêmicos teóricos de comunicação de todos os tempos. Criou conceitos que se tornaram referências: aldeia global, era eletrônica, além da famosa frase “o meio é a mensagem”. O filósofo canadense é considerado um visionário. Na década de 1960 anunciou –com 30 anos de antecedência – o que viria a ser a Internet. Durante uma conferência na Televisão Nacional do Canadá, em maio de 1966, ele falou sobre o futuro: “Em vez de sair para comprar um livro, vai-se ao telefone e indicam-se os interesses, necessidades e problemas que se têm (…). Com a ajuda de computadores de todas as bibliotecas do mundo, fotocopia-se imediatamente todo o material mais recente que interessa à pessoa. O pacote é enviado como um serviço pessoal direto. É neste sentido que se caminha, na situação de informação eletrônica. Os produtos transformam-se cada vez mais em serviços”. É preciso dizer mais alguma coisa?
Monteiro Lobato (1882-1948), o popular autor do Sítio do Picapau Amarelo, foi também editor, cronista, tradutor. Escreveu um único romance – o Presidente Negro – livro polêmico em que a principal personagem faz apologia da “eugenia”, doutrina que prega o melhoramento genético a partir da concepção de superioridade de uma raça – em outras palavras, o mesmo princípio do nazismo. Tirando o susto de ver a nossa maior referência em literatura infantil abordar o “eugenismo” de forma acrítica, há uma grata surpresa no livro escrito em 1926. Um personagem viaja para o futuro e faz duas observações em um só comentário: “a roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o rádio transporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias para o escritório e voltar pendurado num bonde (…) o homem fará o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma, trabalhar-se-á à distância”. E mais, disse a personagem que as notícias dos jornais serão “radiadas” diretamente para a casa dos leitores que a lerão numa tela. “Descobriram-se novas ondas, e o transporte da palavra, do som e da imagem, do perfume e das mais finas sensações tácteis, passou a ser feito por intermedio delas (…). O serviço, o teatro, o concerto é que passaram a vir ao encontro do homem”.
Se nos admiramos por Marshal McLuhan ter previsto a Internet com 30 anos de antecedência, o que dizer do que imaginou Monteiro Lobato, sobre a mesma possibilidade, em 1926? Quanto à aposentadoria da roda no longínquo ano de 2.228, convém não duvidar… Afinal, o autor alerta: “o que diria um romano, do tempo de Cesar, se lhe dissessem que não precisaria sair de casa para conversar com uma pessoa em Paris, através da rádio comunicação?” Adaptando o provérbio russo, “o melhor do novo é, muitas vezes, a imaginação memorável”.