Dia da Mulher: exposição retrata usuárias de serviços sociais de Cachoeiro

Regina tem 18 anos e sonha em ser psicóloga mas, no momento, faz curso de manicure. Ela sabe que a vida não é fácil. As lutas e dificuldades que enfrenta em casa ensinaram isso. Mas ela vem aprendendo, também, a encarar a vida de frente.

Ana Maria, 63, já viveu muito mais que Regina, mas preserva a capacidade de sonhar. Trabalha como ajudante de pedreiro e se considera uma vencedora. Tem orgulho da mulher que se tornou. Hoje, se olha com muito mais respeito, apesar das lutas. Diz que nada conseguiu lhe tirar a disposição de seguir pela vida sempre sorrindo.

Ambas, cada uma à sua maneira, carregam marcas, histórias de dor e de superação. São usuárias dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), espaços mantidos pela prefeitura em regiões de maior vulnerabilidade social, sob coordenação da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semdes).

Elas fazem parte do grupo de nove mulheres que foram selecionadas para terem o rosto fotografado por Márcia Leal para a exposição “Novos Olhares”, que será lançada no próximo dia 8, como parte da programação do Dia da Mulher. A abertura está prevista para as 9h, na praça Jerônimo Monteiro. A mostra, depois, será levada para ser exibida nos Cras dos bairros Jardim Itapemirim, Alto União, Vilage, Zumbi e do distrito de Burarama.

Primeira vez no salão

Estas mulheres viveram um dia especial: foram cuidadas com carinho, bem maquiadas, penteadas e valorizadas em sua singularidade. Todas foram produzidas por dois renomados profissionais da cidade, os maquiadores Ed Alves e Cíntia Mattos, que trabalharam de forma voluntária.

Muitas nunca haviam sequer ido a um salão de beleza. Para elas foi uma experiência marcante, uma oportunidade de se enxergarem de uma forma diferente e de serem vistas pelo outro sob uma nova ótica: não como vítimas da vida, mas como mulheres de valor, vencedoras de obstáculos e donas da própria história.

Rosângela ficou emocionada. Sentiu-se linda e especial. Outra mulher! Renata estava muito feliz, porém com um pouco de vergonha, afinal, nunca tinha ido a um salão. Ao se olhar no espelho toda produzida, Maria da Glória lembrou da avó, que dizia que ela era uma princesa.

Se pudesse, Dolores andaria todos os dias com o cabelo feito e maquiada, vaidosa que é. Cecília, com seus 64 anos, nunca havia sido arrumada assim, e estava radiante.

Enxergando a beleza em si

Profissional do ramo de beleza há mais de 15 anos, Ed Alves já tem muita experiência em lidar com mulheres de todas as idades, classes sociais e tipos de histórias. Costuma dizer que é um “psicólogo da beleza”, pois não se trata apenas de produzir uma mulher, mas também de transmitir suas concepções que a ajudam a sentir-se mais bonita e segura de si.

Ele notou que, quando elas chegaram ao salão, estavam tímidas e retraídas. “É algo novo para elas. Mas, quando elas se veem no espelho e sentem-se lindas, a gratidão brilha no olhar. Assim é com qualquer cliente do salão, pois toda mulher fica feliz com este cuidado. Isso é o mais importante da nossa profissão: receber esse agradecimento em forma de alegria.”

Cíntia Mattos, com mais de dez anos de carreira, já maquiou até as estrelas da rede Globo. Mas ela também sempre fez trabalhos voluntários, pois acha gratificante despertar na mulher uma nova percepção da própria imagem. “A maquiagem é uma dentre várias ferramentas que a mulher tem para se cuidar e se admirar. Trabalhar com autoestima é fazer a mulher enxergar a beleza em si. Não somente a beleza exterior, mas a do sorriso, do olhar e a da vontade de fazer acontecer.”

A descoberta de uma nova imagem

O próprio título da Exposição sugere não somente um, mas vários novos olhares. Não é apenas uma mulher bem produzida, com uma nova imagem no espelho e na fotografia. É entender que o valor de uma mulher vai além das aparências.

Elas foram chamadas a despertar para uma nova face até então encoberta, porém linda e única, entre as infinitas nuances que delineiam a alma feminina. E o que elas desejam é serem vistas assim: múltiplas, sem rótulos ou preconceitos; valorizadas, e não menosprezadas, por suas marcas de vida; respeitadas em suas escolhas e livres para ser quem elas quiserem.

A fotógrafa Márcia Leal buscou retratar a essência de cada uma delas. Na sessão de fotos, lidou com a timidez de quem nunca havia estado diante de uma câmera. Teve que buscar recursos para fazer suas modelos ganharem segurança e sorrirem sem medo.

“Brinquei, cantei e conversei com todas para entender a personalidade delas, pois queria transmitir uma imagem diferente, porém verdadeira. A imagem de uma mulher empoderada, e não sofrida e vítima de preconceitos no dia a dia. Quis mostrar que elas tem valor para a sociedade e que devem se olhar mais no espelho e verem como são bonitas”, afirmou.

Priscila ficou encantada em se ver retratada por um fotógrafo pela primeira vez. Maria Elizabeth, de 64 anos, ficou quase sem palavras. Apesar de todos os problemas, viveu este dia de forma intensa e conseguiu se soltar diante das lentes. Ela, que faz parte do grupo de dança do centro de convivência Vida Ativa, deixa sua lição: “nada pode tirar minha alegria, por isso eu danço”.

Com informações da Prefeitura de Cachoeiro