Cássia Rodrigues: “Depressão é uma doença grave que mata muito”

A depressão é uma doença que acomete milhares de pessoas mundo afora e o principal sintoma é um sentimento profundo de melancolia. A pessoa, na sua tristeza, busca o isolamento e se sente impotente para se curar e seguir em frente. “Depressão é uma doença grave que mata mais do que câncer, por que ela mata devagarinho”, afirma a psicóloga Cássia Rodrigues. Em tom de alerta, diz que esses pacientes precisam de ajuda, tanto que podem até buscar o suicídio. Além do cuidado e apoio da família e amigos, ela aponta que a pessoa com depressão “precisa de remédio e terapia”, deve ser tratada por médico, psicólogo, nutricionista e outros profissionais. Cássia, que é também psicanalista, economista, teóloga e terapeuta familiar, dirige o Instituto de Psicanálise Cássia Rodrigues, em Vitória.

REVISTA SIM: O que é depressão?
Depressão não é frescura. Às vezes pensamos que isso é frescura, porque estamos entre os 75% que não têm depressão, e não conseguimos entender por que a pessoa tem aquela forma de viver. Tem o estilo depressivo de viver; tem depressão. A pessoa que é depressiva não adianta ter dinheiro, marido, ter filho, ter roupa, que ela vai ser depressiva. Não é o externo que muda, é de dentro pra fora. Há dois tipos de depressão: a interna, que é produzida pela queda de um neurotransmissor chamado serotonina, e a externa, que ocorre quando se tem perdas. Na interna, o neotransmissor (como se estivesse em uma rua com pontes, e cai onde as pontes não foram construídas) cai na chamada fenda sináptica, e não é recaptado pelo corpo. E quando não é recaptado, não adianta ter um bom marido, ter carro, casa, ser milionária. A pessoa nasce com essa estrutura emocional e segue com essa forma de viver. Tem ainda uma outra forma de viver, em que a pessoa é mal humorada, e pode ser por causa de uma distimia, que é um tipo de depressão, muito acometida pelos homens.
SIM: E a depressão externa?
Ocorre quando se tem perdas. A pessoa vai vivendo normal, de repente tem uma perda de um namoro, casamento, emprego, morte, e não dá conta disso. A gente tem que entender que toda perda tem etapas de luto, que duram no máximo um ano, quando a dor é máxima. Há cinco etapas do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) foram descobertas pela psicóloga Elisabeth Kubler-Ross. Mas quem é depressivo paralisa no estágio quarto, da depressão, aí a pessoa não vai para o último passo, que é aceitar e seguir a vida.

SIM: É doença grave?
Depressão é uma doença grave que mata, mata muito. 25% da população são depressivos, e esse dado vai chegar a 30, a 40%, pois estamos vivendo no mundo contemporâneo, rápido; um mundo de desconexão na conectividade. Então, a depressão mata, mata mais do que câncer, ela mata devagarinho. A pessoa tem câncer, vai lá faz quimioterapia. A depressão não tem quimioterapia para fazer. As pessoas resistem a procurar um psiquiatra porque elas não se dizem loucas. Até procurar psicólogo as pessoas resistem, e ir a psicólogo deveria ser igual a ir para a escola, porque temos que ter o autoconhecimento. Então, é grave, mata e é uma doença seríssima que afeta a estrutura do cérebro.

SIM: Como tratar?
O tratamento é inter e transdisciplinar. Interdisciplinar é o apoio da família, malhar, procurar um psicólogo, psiquiatra, procurar um endócrino (porque você pode estar com uma disfunção na tireóide), procurar um nutricionista, porque hoje está comprovado que a serotonina também é produzida no intestino, não é só no cérebro, e é comprovado cientificamente que há alimentos que geram bem estar. Antigamente ia-se somente no clínico geral. Agora há uma rede transdiscipliar; um conjunto de profissionais trabalhando para te jogar para cima.
SIM: Por que a pessoa desenvolve essa doença?
A pessoa aprende comportamento dentro de casa. A gente aprende a nossa forma de ser com os nossos pais. Muitas pessoas são criadas por pais extremamente depressivos, e elas vão aprendendo comportamentos depressivos sem necessariamente ter depressão. Aí, elas não sabem enfrentar as coisas da vida porque os pais ou quem as criaram, o avô, o tio, não ensinaram. Quem criou ensinou como ela irá reagir na vida. Se você teve um pai depressivo, que enfiava a cabeça num buraco fugindo do problema, você cresce com o mesmo modelo mental para enfrentar o problema. Você aprende dentro de casa a ser quem você é.

SIM: E fora isso?
Ela é também uma doença estrutural; nasce com algumas pessoas. A gente vê que ainda no berço há bebezinhos que já têm um olhar triste e caidinho. Só que esse bebê, que já nasceu depressivo, ele pode ter uma família que o estimule e ele não desenvolverá aquilo que está na marca genética dele. A maneira de criação forma uma couraça em volta do que hoje estamos dando o nome de epigenética. Aquilo que está na sua marca genética não necessariamente precisa se manifestar, é a proteção do gen.
SIM: Que influência a vida moderna, em especial, momentos de instabilidade como este agora no país, podem exercer para que a pessoa venha a desenvolver essa patologia?
Em torno de 25% por cento das pessoas que perderam ou vão perder o emprego e vão entrar em depressão. 75% destes vão entender que é uma oportunidade de mudança; que a grande crise que estamos passando, econômica, social, política, financeira, é uma oportunidade de se reverberar, ser resiliente, e fazer do limão um grande mousse. Todo mundo vai sofrer a crise do mesmo jeito? Não. Tem gente que vai aproveitar o desemprego para estudar. Só que 25% vão cair abaixo do chão e vão entrar em depressão. Não é externo. Não é porque do lado de fora está mal, eu fico mau. É como eu olho o lado de fora, é daqui pra lá, e não de lá pra cá.

SIM: Há uma corrente que defende ser a depressão uma doença de ordem espiritual. A senhora concorda ou não com isso. Por quê?
Somos seres corporais, espirituais, e emocionais, somos uma triunidade. Se fosse só espiritual, não teríamos a parte física. O mal vai entrar em você se você não tiver a proteção pra ele entrar. Então, não acredito só na corrente espiritual, porque se fosse assim, se orasse, parava a depressão. Tem muitas igrejas, não importa quais, que acham que depressão é possessão maligna, e não é. A Bíblia diz que Elias entrou na caverna. Ele ficou depressivo e Deus mandou alimentos pelos passarinhos. É a depressão contada na Bíblia. Então, precisou do passarinho, que seja o terapeuta, o médico, trazer o alimento, porque ele não consegue buscar o alimento. Quem é depressivo não consegue levantar da cama, não consegue buscar essa força. E quem não é depressivo, não consegue entender isso. Então é uma doença física, orgânica. Não é doença espiritual, é corporal, a ciência diz isso.

SIM: O que pode ocorrer com um paciente cuja depressão não seja tratada?
Ele pode até cometer suicídio, se jogar da ponte, ou debaixo do carro; cortar os pulsos, porque ele quer acabar com a dor. O depressivo ele não quer acabar com ele, ele quer acabar com aquela dor que ele está sentido. A dor todos nós temos, seja depressivo ou não, todo mundo enfrenta a dor. A vida é feita de dor. Só que o depressivo quer acabar com aquela dor que está apertando o estômago dele, a garganta, dele, a cabeça dele. O depressivo ele suicida. Não adianta a gente achar que falar que quem avisa não se suicida. Quem avisa está pedindo ajuda.

SIM: Falando assim a senhora não estaria estimulando uma pessoa já vulnerável, com depressão, a cometer suicídio?
Eu penso que a família também lerá a matéria, e vai saber que aquela pessoa que fica lá direto em cima da cama precisa de sua ajuda. O que está depressivo vai ler e falar que tem vontade de se matar mesmo, então, é normal. A pessoa depressiva nem consegue explicar o que ela sente. Ela não vê o dia azul. Ela vê o dia cinza todos os dias. Todo mundo levanta da cama e vai trabalhar. A pessoa depressiva não tem vontade de levantar da cama. Então, esse meu jeito de falar tão duro, é para fazer um alerta ao pai que tem um filho depressivo, a um marido que tem uma esposa depressiva, ao amigo que tem um amigo depressivo para que saibam que a pessoa depressiva não está com frescura, ela tem vontade de sucumbir. É também para dizer à pessoa que tem depressão que eu te entendo. Você tem vontade de tirar sua vida.
É engraçado que a medicina fala que nós protegemos a nossa vida. É natural, no instinto de sobrevivência você vai proteger a sua vida. O depressivo, não. Ele vai numa sacada e tem vontade de se jogar para acabar com a vida dele. E nós temos aqui em Vitória muitas pessoas que se suicidam. A ponte é uma morte súbita. Várias pessoas param o carro lá e se jogam da ponte. Não estou fazendo um estímulo ao suicídio. Estou fazendo um aviso. Setembro é o mês do suicídio, é o mês amarelo, o mês de cuidar das pessoas que têm desejo de morrer. O amarelo é para avisar: essas pessoas querem morrer. E o que nós, que somos 75% da população estamos fazendo para ajudar esses 25%. É um número muito grande é ¼ da população que tem vontade de morrer.

SIM: Mesmo doentes depressivos seguem trabalhando…
Depende. Se a pessoa está com uma depressão muito grave ela não tem vontade de trabalhar. Há uma diferença entre eficiência e eficácia. Eficiência é você pensar que está fazendo o certo. Eficácia é quando você atende o que o outro está querendo, e é a junção das duas coisas é que torna o profissional capaz. Muitas pessoas depressivas podem ser eficientes, mas podem não estarem atendendo, e quem é depressivo não consegue entender essa lógica. O trabalho pode ser um enfado quando a pessoa não tem prazer na vida. Confúcio diz: escolhe uma coisa que você gosta de fazer que você nunca vai trabalhar. O depressivo não está escolhendo uma coisa, ele vai por falta de opção. Na verdade ele não sabe o que ele gosta. Por isso que a terapia é importante. Por isso que o remédio é importante, porque muda a estrutura cerebral. Mas a terapia muda o comportamento. Só remédio não muda. Só terapia não muda. Depressão precisa de remédio e terapia. Na terapia ela vai entender que aquela crença a levava à depressão, então vai mudar a crença.