A virtude está no meio | Blog André Garcia

O título do presente artigo remete ao equilíbrio que o meio ou o centro representa. Tem pouco a ver com o espectro político-partidário existente no Brasil e certamente no mundo todo, mas, ao mesmo tempo pressupõe que toda solução para a condução da vida em sociedade sugere que seja feita de forma equilibrada, racional e, por que não dizer, com uma boa dose de pragmatismo.

Aliás, eu acrescentaria ao pragmatismo um pouco de ceticismo. De antemão adianto que não estou me referindo ao ceticismo como sinônimo de uma visão pessimista do mundo, mas sim como o reconhecimento prévio que toda teoria ou proposta que se apresenta como solução para todos os problemas, em princípio, não logrará êxito em seu propósito.

O cético é, antes de tudo, uma pessoa que reconhece as limitações de todas as construções teóricas de cunho universalista. Essas teorias, no geral, resumem ou tentam explicar a vida com princípios doutrinários, alguns deles inflexíveis, o que, de antemão, constitui um anacronismo sem sentido.

Para mim as ideologias por si sós, servem como fonte para balizar nossa compreensão do mundo, mas não esgotam, nem podem limitar nossa forma de pensar e de encarar os problemas da sociedade moderna. Não podemos ficar presos a essa armadilha que rotula as pessoas e reduz os debates a embates estéreis.

Enfim, socialistas, capitalistas, anarquistas, e todos os “istas” que possam existir, cada uma dessas correntes contribui decisivamente para nossa forma de encarar o mundo, mas não são suficientes para resumir a vida e as complexas relações em sociedade.

Quando se mergulha fundo em qualquer uma delas e não se abre espaço para as suas eventuais contradições, abre-se a porta para o fundamentalismo.

Fundamentalista é aquele que enxerga o mundo com uma espécie de cabresto ideológico. Não olha para os lados, não enxerga nada além dos dogmas e princípios, muitos deles anacrônicos. Na frase atribuída à Nelson Rodrigues a “ideologia absolve e justifica os canalhas”.

O que quero dizer é que toda solução extremada tem uma grande chance de dar errado. Basta revisitar a história. O nazismo e a ditadura do proletariado, apesar de extremos opostos, são convergentes na tragédia que proporcionaram à humanidade.

As lideranças que surgiram nesses tempos tomaram proveito de períodos de ceticismo e descrença nas lideranças tradicionais, que foram incapazes de esclarecer a todos sobre os desafios e soluções para enfrentamento das crises.

Não lograram êxito em esclarecer que toda crise passa. São momentos de aprendizado que passam por uma fase de ruptura, demandam medidas reestruturadoras, corajosas em sua maioria, mas que representam o processo necessário para superação das dificuldades de momento.

Liderança pressupõe coragem, capacidade de discernimento e de convencimento.

Com isso, abriram espaço para discursos fáceis, marcados pela sentimentalidade e voluntarismos. Para esses pretensos líderes tudo pode ser resolvido de forma simples, faltando apenas vontade para tanto. Ou seja, falam o que todos os incautos querem ouvir, sem maiores exigências quanto à coerência ou plausibilidade das propostas.

Lembra, da forma criativa e irônica que lhe é peculiar, o filósofo Luís Felipe Pondé, que a esquerda conseguiu obter o rótulo do bem. Ainda hoje soa mal se autodefinir como conservador ou um defensor de instituições tradicionais herdadas de nossos antepassados.

Esse processo, segundo o pensador pernambucano radicado em São Paulo, tem sua origem na difusão do ideário revolucionário como salvação da humanidade.

De certa forma, somos todos vítimas de Rosseau, que apostava no homem e sua pureza corrompida ao longo do tempo pela vida em sociedade.

Esse homem idealizado, por incrível que pareça, tem sido referência e ponto de partida para todas as teorias e ideologias que, no fundo, apenas transferem a responsabilidade pelos insucessos dos indivíduos para as instituições burguesas que sustentam o mundo predominantemente conservador, liberal e capitalista.

Segundo essa visão, tais instituições, inclusive a família, são instrumento de opressão das liberdades e da autenticidade do ser humano.

Mas é exatamente essa visão idealizada, essa marca da perfeição humana, que constitui o equívoco desse ponto de partida.

Devemos entender que não há explicação suficiente, perfeita e acabada, nem muito menos uma ideologia absoluta que explique e justifique nossa forma de existir, de pensar, de nos relacionarmos, de convivermos em sociedade e de produzirmos os bens necessários para o sustento de todos.

A figura idealizada do homem bom, cordial, corrompido pela sociedade, só serve como justificativa falsa para nossas falhas e imperfeições individuais e que são próprias do ser humano.

Quem pensa como um revolucionário, defende a justiça social e todo ideário voltado a redesenhar a sociedade segundo a cartilha romântica, sustentada por uma retórica agradável aos ouvidos, impessoal e remissora, cujo exagero leva a posturas cada vez mais divorciadas da realidade e da necessidade de reconhecermos nossos erros enquanto indivíduos.

Repercutindo o jargão popular, falar é fácil, e se vier com uma boa dose de sentimentalidade e sensacionalismo está aí uma combinação explosiva e perigosa para qualquer sociedade que se preze.