A política que nós queremos

Já escrevi em outra oportunidade que vivemos uma fase de grande desilusão com a política. Escrevo a palavra com “p” minúsculo porque é sobre ela que estou escrevendo agora. Não me refiro, portanto, à verdadeira ferramenta civilizatória, essa a Política com “P” maiúsculo, mas sim à prática de alguns – talvez muitos – políticos de plantão que vêm por gerações se apossando da coisa pública.

São muitos os maus exemplos desnudados pela imprensa e pela polícia. Sim, esses políticos carreiristas e descompromissados com os interesses da sociedade brasileira transformaram a arte de bem governar, em um caso de polícia.

Há uma distância enorme entre o que se fala e o que faz.

Isso gera, dentre outros efeitos indesejados, um ambiente com déficit de liderança. Explico melhor. Um sistema viciado, onde não importa bem o preparo do indivíduo, mas sim sua esperteza, condiciona e limita os debates, quando existem.

Temas impopulares são deixados de lado e problemas graves quando são enfrentados, o são apenas na dimensão que a retórica populista permitir. Ou seja, o debate público tem um limite. Esse limite é o oportunismo político.

Alguns, mesmo conscientes que o problema precisa ser solucionado, cruzam os braços à espera de uma solução mágica. E essa, como sabemos, não virá.

Ninguém, ou quase ninguém, quer assumir o ônus do convencimento e da conscientização. Vivemos uma certa letargia coletiva. Com essa crise moral, política e ética que vivemos a primeira vítima do processo é a verdade. Essa dá trabalho, não angaria capital político porque não conta com a simpatia popular.

Caminho aberto para o populismo barato, a bravataria e as soluções simples para problemas complexos.

Mas há salvação para isso? Há sim. Mas não será simples a solução.

Temos um sistema viciado, com muitos partidos que nada representam. São meras siglas que abrigam os mais diversos espectros ideológicos e interesses difusos. Não há identidade com programas e, consequentemente, fidelidade partidária.

É preciso uma ampla reforma política que limite o número de partidos, crie regras rígidas de fidelidade programática e para o financiamento dos partidos e das campanhas políticas.

Além disso, é preciso rever o sistema de representação proporcional e de escolha desses representantes.

Não faz sentido a quantidade absurda de senadores, deputados federais, estaduais e vereadores. Temos um Poder Legislativo caro, pouco representativo, portanto, disfuncional. Sem dúvida, não haveria prejuízo algum se fosse diminuída a quantidade de cargos eletivos em nosso país. Pelo contrário. A economia de recursos públicos seria significativa.

A disfuncionalidade acima mencionada é uma consequência direta do descolamento do atual sistema de representação. Não há qualquer mecanismo que vincule o representante aos representados, como acontece, por exemplo, em países que adotam o recall político, pelo qual é possível restabelecer, reforçar ou, até mesmo, extinguir mandatos de políticos que deixaram de cumprir com seus compromissos junto ao eleitorado.

Outras seriam as medidas necessárias para trazer de volta a esperança e a credibilidade do eleitorado, entretanto, nada disso fará sentido enquanto não forem abolidos vícios que permeiam o processo de escolha dos futuros mandatários. Isso, certamente, só terá um fim com a melhoria do nível educacional do brasileiro e uma consequente conscientização sobre seus direitos e os deveres daqueles que se apresentam como postulantes à representação popular.