A era da pós-verdade | Blog André Garcia

Faz algum tempo em minhas leituras que tive o primeiro contato com um novo termo conhecido como “pós-verdade”. Confesso que meus preconceitos falaram mais alto e logo me veio à mente um certo ar de desdém com mais uma expressão cunhada por supostos especialistas para classificar algo velho com cara de novo. Mas, essa impressão foi superada ainda na leitura do texto.

Passei a entender que algumas coincidências e situações inusitadas ou inesperadas, que ocorreram recentemente tinham mais do apenas algo relacionado ao momento em que vivemos, marcado pela descrença e falta de legitimidade generalizadas.

Passei a encarar de forma mais acurada sinais que sempre fizeram parte de minhas discussões no trabalho ou com amigos mais próximos. Por exemplo, a constatação que, muitas vezes, a verdade vem perdendo lugar para narrativas nem sempre fidedignas. A percepção que os fatos em si mesmos vêm perdendo sua força diante das versões que lhes são atribuídas. A objetividade vem saindo de moda e sendo deliberadamente encolhida em meio a embates narrativos cada vez mais imprecisos e emotivos.

A impressão que tenho é que há uma evidente impaciência no debate público que cada vez mais tem sido o espaço para a tentativa de prevalência de crenças pessoais em detrimento da verdade objetiva.

Já escrevi em outra oportunidade que, nos dias de hoje, quem tem opinião tem inimigos.

Mas a marca desse período no qual a opinião pública tem sido influenciada cada vez mais por crenças e apelos emocionais em detrimento dos fatos não é a disseminação fácil de versões mentirosas e desonestas.

É claro que as pessoas, especialmente os políticos, mentem e, em alguns casos, exageram na dose. Isso gera descrédito, sem dúvida.

Mas isso, como sabemos, não se trata propriamente de uma novidade.

Mentira, desonestidade e difamações da honra alheia sempre ocorreram.

O diferencial dos tempos atuais é exatamente a indiferença do público e a crescente disposição em dar credibilidade às versões espetaculosas e difamatórias.

Como afirmou o filósofo Leandro Karnal, a opinião pública diante de tanta informação, muitas vezes contraditórias, marcada por uma certa impaciência e pouca disposição para reflexão e para o contraditório, vem sendo deformada.

As pessoas tendem a dar credibilidade à versões de fatos que reforcem seus próprios preconceitos e desconfianças.

 É exatamente contando com isso que campanhas políticas têm buscado influenciar a escolha dos eleitores e dos cidadãos.

Basta lembrar da campanha dos defensores da saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Grande parte das mensagens dirigidas aos britânicos tentavam tocar as pessoas na base da sentimentalidade e do senso comum daqueles que achavam que o país havia perdido o controle sobre seu próprio destino com a adesão feita no passado.

Passaram longe da informação precisa e objetiva e apelaram para informações simples, muitas delas contendo meias verdades ou promessas irrealizáveis.

Nada de números, dados estatísticos, indicadores que poderiam, claro, informar melhor, mas são uma forma chata, maçante e pouco sedutora para fins eleitorais.

A honestidade e a precisão das explicações dos defensores da permanência na União Europeia, perdeu para a sedução da fantasia e para imprecisão de lugares comuns, mas que tocavam as pessoas. Eles comunicaram o que elas gostariam de ouvir. Bingo!

Diante do potencial devastador da pós-verdade sobre a opinião pública, como vamos lidar com isso?

Certamente devemos estimular cada vez mais o senso crítico e a capacidade de interpretar textos que surgem em profusão. Não há outro caminho que não passe pela educação, pelo conhecimento e pelo estado de “prontidão crítica” permanente.

Quando a notícia é demasiadamente escandalosa, dramática e destruidora, é o caso de desconfiar do seu conteúdo.

Ademais, é fundamental o papel dos meios de comunicação. Uma imprensa livre, profissional e isenta, claro, sempre foi a nossa principal fonte de informação. Tem ela um enorme desafio que é retomar o protagonismo em tempos de redes sociais e portais independentes.

É preciso recorrer a todos os meios para não sermos presas fáceis do oportunismo e da desinformação.